Ela:
Sinto-me assim.
A outra:
Assim como?
Ela:
Como se passasse a vida a correr com tesouras.
A outra:
Na mão?
Ela:
Sim.
A outra:
E tens medo de cair...
Ela:
Uma vez, no Bairro Alto, vi uma coisa pintada numa parede: "Imagina que um dia acordas e já não tens nenhum medo."
A outra:
Nem medo de ter medo?
Ela:
Não era bom?
A outra:
Mas hoje pudemos almoçar juntas. E estava sol, e o bife tinha queijo, e a cerveja estava gelada, e o maço estava cheio de cigarros.
Ela:
E tu riste.
A outra:
E tu também.
Ela:
Não tivémos medo. Não tivémos nenhum medo. Nem das tesouras.
A outra:
Já não temos idade para ter medo.
Ela:
O medo tem idade?
A outra:
O medo, não sei. Mas sei que há idades para certos medos.
Ela:
E há truques para os dissimularmos.
A outra:
Os medos?
Ela:
Os medos.
A outra:
Mas voltaram assobiar-te na rua.
Ela:
É porque emagreci. Ou porque está sol. Ou porque não me vêm as rugas e as olheiras debaixo dos óculos escuros.
A outra:
Ou porque decidiste seguir o conselho dela.
Ela:
De desvalorizar os pormenores?
A outra:
De te olhares ao espelho antes de sair de casa.
Ela:
Tomara que chegue ao fim do dia.
A outra:
Vai fazer-nos bem beber mais umas.
Ela:
Para equilibrarmos as tesouras.
A outra:
As tesouras na mão quando corres?
Ela:
Quando corremos.

Ela:
Já te deste conta dos anos que passaram?
A outra:
Desde que nos encontramos aqui?
Ela:
Também. Mas falava de quando nos conhecemos, conhecer mesmo.
A outra:
Ou de quando nascemos.
Ela:
Sim, de quando nascemos. Temos agora tantas rugas.
A outra:
Rugas de pele velha e rugas de expressões velhas.
Ela:
Rugas de mulheres velhas.
A outra:
Dizes isso hoje, agora, porque voltaste a estar triste.
Ela:
Sim, voltei. Voltei a estar triste e lembrei-me que aqui me sinto bem.
A outra:
Acomodamo-nos ao sofá, à tristeza, à vacuidade, à representação e depois é esta merda.
Ela:
Não gosto de mim acomodada.
A outra:
Estamos sempre a olhar para trás.
Ela:
É verdade. Eu sei. É verdade. Mas ás vezes olhar em frente é pior.
A outra:
Tens medo?
Ela:
Tanto medo. Tenho tanto medo.
A outra:
Mas não podes ter assim tanto medo. Não podes parar um dia sequer, sabes que não podes.
Ela:
Sei. Mas tu entendes, às vezes precisava de me acoitar em algum sítio. Só por um bocadinho, só às vezes. Sempre esta couraça de mulher valente, que nada nem ninguém derruba, sempre este ar contente com a vida, sempre a calar desejos e medos.
A outra:
Mas não tem que ser assim. Ninguém espera que sejas uma super-mulher.
Ela:
Não? Eu acho que ninguém espera outra coisa. Porque se um dia eu mostrar fraqueza, toda a gente me vai apontar o dedo e dizer que fui eu que fiz as minhas escolhas e toda a gente me vai dizer que me avisou e eu não gosto que me digam que me avisaram.
A outra:
Arrependes-te?
Ela:
De quê? Das escolhas que fiz?
A outra:
Sim.
Ela:
Das escolhas não. Arrependo-me de uma ou duas coisas que fiz ou deixei de fazer na vida, mas só mesmo uma ou duas, nada de muito definitivo naquilo que sou hoje.
A outra:
Eu arrependo-me.
Ela:
Do que fizeste ou do que deixaste por fazer?
A outra:
De ambas. Podia ter hoje uma vida tão diferente.
Ela:
Sim, seria diferente. Mas não sabes se seria melhor. Nunca sabemos. Mais vale vivermos esta que temos.
A outra:
Mais vale aprendermos a viver esta que temos.
Ela:
Tinha saudades tuas.
A outra:
Sabes, há uns cremes para as rugas.
Ela:
E vernizes coloridos para as unhas, lembras-te?
A outra:
E Bohemia. Uma destas noites?
Ela:
Absolutamente sim.
Ela:
Gostava tanto de ter uma vida bonita.
A outra:
Bonita como?
Ela:
Bonita. Como nos flmes. Com sorrisos e sol e jardins frescos.
A outra:
Que tédio, não achas?
Ela:
Acho. Mas estou cansada. Acho que, acima de tudo, estou cansada.
A outra:
Pelo menos quando te deitas à noite, dormes.
Ela:
Engano teu. Quando me deito à noite torço-me de arrependimento de ter perdido mais um dia.
A outra:
O que faria com que os teus dias não fossem perdidos?
Ela:
Não sei. Fazer coisas bonitas. Ver coisas bonitas.
A outra:
Às vezes fazes coisas bonitas.
Ela:
Já não me emocionam. Já nada me emociona. Como se estivesse anestesiada.
A outra:
E estás. Eu sei que estás. Não te zangas, não te ris de olhos inteiros, não choras, não sonhas.
Ela:
Emocionante, não?
A outra:
Se viesse o tal génio, o dos três desejos, que lhe pedirias hoje?
Ela:
Um par de botas novas. Não, um par de sandálias novas.
A outra:
Devias pintar as unhas.
Ela:
De que cor?
A outra:
De azul. Fica-te bem.
Ela:
Não, tenho as mãos arranhadas, queimadas e com golpes.
A outra:
É de andares anestesiada.
Ela:
Queria diferente.
A outra:
Não queremos sempre?
Ela:
O pior é isto, não saber exactamente o que quero.
A outra:
Tens a certeza que não sabes?
Ela:
Não, não sei. Já não posso querer o que queria dantes, não posso ficar novamente desapontada, não sei o que hei-de querer que seja seguro.
A outra:
Se calhar nada é seguro.
Ela:
Devia haver qualquer coisa que fosse. Qualquer coisa, uma coisa só.
A outra:
Para que queres tu essa coisa segura?
Ela:
Para me agarrar, de tanto andar à deriva já não sei de onde vim, já não sei onde pertenço, já não sei para onde comecei a dirigir-me.
A outra:
Mas isso, se calhar, é bom. Assim podes escolher um caminho novo.
Ela:
Mas tu também não me ouves? Eu nõ sei o que escolher, eu não sei o que quero.
A outra:
Pareces uma criança a fazer birra.
Ela:
Mas sou uma quase velha a ficar gorda, com rugas, com falta de vista e dores nas articulações.
A outra:
És tão parva.
Ela:
Tenho sido tão parva.
Ela:
Tu soltas-me a língua.
A outra:
E tu a mim o sorriso.
Ela:
Doem-me os pés, farto-me de andar em caminhos errados, ando, ando e não chego a lado nenhum.
A outra:
É sempre assim, nunca sabemos se o caminho está certo.
Ela:
Mas a intuição, há gente que não se engana tanto.
A outra:
E isso tudo que andas, querias chegar onde?
Ela:
A foda é essa, não sei. Não sei onde quero chegar e até já não sei muito bem onde não quero.
A outra:
Pensa. Se te aparecesse o génio dos três desejos, o que pedirias?
Ela:
Não vês que não sei? Pedir sossego ou tranquilidade ou segurança ou outra merda qualquer é pedir nada, é abstracto, não saberia o que pedir.
A outra:
Nem eu. Assim é uma merda.
Ela:
Então é isto? Andar às cegas? Confiar na sorte?
A outra:
Pelo menos o teu gato tem sete vidas, tem oportunidades a multiplicar por sete.
Ela:
Grande coisa. Se lhe calhar sempre uma dona como eu.
Ela:
Pode ser que lhe calhe uma melhor.
A outra:
Uma que goste dele. Que não o castigue a ele por se sentir infeliz.
Ela:
Nem paciência tenho para lhe fazer festas.
A outra:
Quem é que te faz festas a ti?
Ela:
E a ti?
A outra:
O meu cão.
Ela:
Mas tu gostas do teu cão.
A outra:
E tu gostas de mim.
Ela:
Mas às vezes não sei como gostar de mim.
A outra:
É fácil gostar de ti.
Ela:
Mentirosa. De ti sim. Tens os olhos verdes e a voz macia.
A outra:
Se calcasses o chão com menos força.
Ela:
Gostavas mais de mim?
A outra:
Não, gostavas tu mais de ti.
Ela:
Somos umas tristes, não somos?
A outra:
Não, estamos tristes. Apenas.
Ela:
Já reparaste? Mais um bocadinho e podemos mostrar os braços.
A outra:
E os ombros. E os tornozelos.
Ela:
Com sol, tudo é diferente.
A outra:
Até nós.
Ela:
Apetece namorar.
A outra:
Beijar, andar de mãos dadas.
Ela:
Apetece estar apaixonado.
A outra:
Até parece que rejuvenescemos.
Ela:
Não tens saudades?
A outra:
De estar apaixonada?
Ela:
Sim.
A outra:
Tenho.
Ela:
Como nos filmes, o riso aberto, sem sombras.
A outra:
A boca a abrir-se para dizer o que sente, sem pensar.
Ela:
Sem más memórias nem medos escuros.
A outra:
Os olhos brilhantes.
Ela:
Tenho saudades dessa leveza.
A outra:
Até a da roupa. Deixar casacos, deixar botas.
Ela:
Não, botas não, passar para as botas de verão.
A outra:
De saltos altos.
Ela:
Altíssimos, para fugirmos do chão.
A outra:
Para fugirmos do frio.
Ela:
E das nossas histórias.
A outra:
Principalmente as mal contadas.
Ela:
Principalmente essas.
Ela:
Em poucas semanas perdi dez quilos no corpo, ganhei mil anos na alma e escrevi centenas de páginas no meu diário.
A outra:
Tu tens um diário?
Ela:
Não tenho. E não tinha. Tive. Apenas enquanto ganhava anos e perdia peso.
A outra:
Disseste lá tudo aquilo que me calaste?
Ela:
Tudo. Quase tudo. Calamos sempre alguma coisa.
A outra:
Tu calas demais. Andas a calar demais.
Ela:
Estou a ser cautelosa. Ponderada. Racional.
A outra:
Estás a encher e acabarás por transbordar.
Ela:
Se isso acontecer, quando isso acontecer, vais estar aqui?
A outra:
Vou.
Ela:
Gosto que estejas. Não me dizes que bem me avisaste.
A outra:
Vou estar aqui.
Ela:
Sabes que ainda tenho medo, não sabes?
A outra:
Sei. Mas olha, o pior já passou.
Ela:
Sim, não pode ser pior do que foi, pois não? E eu agora sou outra, sou esta.
A outra:
Gostas de ser esta?
Ela:
Ainda não sei. Para já não me olho ao espelho.
A outra:
Estás bonita.
Ela:
Não vês o que tenho por dentro.
A outra:
Vejo. Estás bonita.
Ela:
Sei que não estou. A maquilhagem não me fica bem.
A outra:
Não, não fica. Mas quando te levantas de manhã estás bonita.
Ela:
Dói-me a garganta por ter estado tanto tempo calada.
A outra:
Mas eu fui-te ouvindo.
Ela:
Pois, pois, ouves-me nos silêncios e tal.
A outra:
Sarcasmo e chuva não conjugam.
Ela:
Desculpa. Esta sou eu, agora.
A outra:
E esta que és agora, o que vem aqui dizer?
Ela:
Nada. Como sempre. Nada. Ele disse-me que gosta de me ouvir, sabes. E eu abri a boca, mesmo sem nada para dizer.
A outra:
Tenho medo quando te calas.
Ela:
Não tenhas. O pior já passou.
A outra:
Eu sei. Mas tenho medo.
Ela:
Não volta. Prometo.
A outra:
Porque és esta, agora?
Ela:
Sim, porque sou esta agora.
Ela:
Há estes momentos em que cedemos à sobrecarga.
A outra:
Sim.
Ela:
Em que o fusível se desliga para não queimar.
A outra:
Sim.
Ela:
Em que parece que nem o corpo já nos pertence.
A outra:
Sim.
Ela:
Como quando a dor física nos faz perder os sentidos.
A outra:
Sim.
Ela:
Como quando deixas cair a carga que transportas porque os teus braços tremem de tanto esforço.
A outra:
Sim.
Ela:
Como quando te deixas cair sem te conseguires sentar porque as tuas pernas estão bambas.
A outra:
Sim.
Ela:
Pois.
A outra:
Sim.
Ela:
Por isso vou descansar. Deixa-me um pouco, sim?
A outra:
Sim.
Ela:
Sabes o que me tocou mais?
A outra:
O quê?
Ela:
Ter-me dito que os meus olhos são tristes.
A outra:
Ele disse-te isso?
Ela:
Sim. Que estou na mesma, mas que o meu sorriso está diferente porque tenho os olhos tristes.
A outra:
Estás triste?
Ela:
Que importa isso? Não queria era que se visse. Assim parece uma coisa mais definitiva, mais incontornável. Assim, tenho de adimiti-lo a mim mesma.
A outra:
Preferia ver-te zangada. Triste é... triste.
Ela:
Ainda me zango. Mas já não fico zangada. Fico triste, parada, magoada, uma tristeza tão imensa que toma conta de mim toda. Não consigo reagir, não consigo mexer-me. Mas o pior, o pior mesm0o, é quando atinge este ponto em que já não engano ninguém. E depois dizem-me que os meus olhos já não são como eram, que são tristes.
A outra:
Tenho medo quando ficas triste.
Ela:
Sinto-me tão sozinha. Dói tanto isto de nos sentirmos sozinhas com uma tristeza tão avassaladora.
A outra:
Bebemos um copo?
Ela:
Não. Já nem isso. Não percebes? Tudo me foge das mãos. Não tenho nada como seguro. Farto-me de esbracejar mas não tenho para onde nadar. Não tenho um porto seguro. Nem na tristeza. Só esta vontade assustadora de acabar com a dor, de alguma maneira.
A outra:
Eu dou-te a mão.
Ela:
Eu sei. E agradeço-te. Mas sabes... é como se só outra mão pudesse, de facto, valer-me.
A outra:
A mão que te afunda?
Ela:
A que me magoa, tantas vezes por omissão.
A outra:
Tinhas jurado que nunca mais. Nunca mais te verias nessa posição, nunca mais amarias, nunca mais esperarias nada de ninguém, nunca mais acreditarias que existe uma pessoa, a pessoa, que seria incapaz de te magoar.
Ela:
Eu já não acredito. Sei que e de quem mais amamos que vêm as maiores mágoas. Mas não escolho quem amo, assim como não posso esconder os meus olhos tristes. Antes, há muitos anos, ele dizia-me que era um privilégio ter uma amiga com uns olhos tão cheios de vida e de paixão. Agora estão tristes. É como  se estivessem mortos. Os meus olhos estão mortos.
A outra:
Olhos mortos não choram.
Ela:
É como se os meus estivessem a fazer o meu próprio luto. Estou tão triste. Estou tão triste.
Ela:
Nasci antes do 25 de Abril, mas não a tempo de o viver. Por isso, conheço-o através de testemunhos de pessoas distantes, que escrevem livros e dão entrevistas, mas também de pessoas próximas, a minha família, amigos, acima de tudo o meu pai. Mais, nasci, cresci e sempre vivi na margem sul; os primeiros 20 e poucos anos da minha vida tiveram como pano de fundo a Lisnave. Era de lá que os meus pais traziam os ordenados. Foi de lá que deixaram de os trazer quando os Mellos assim o entenderam. Foi por causa da Lisnave que entrei nas minhas pimeiras manifestações e segurei os primeiros panos. Em paralelo, as minhas primeiras festas foram as do PCP, as dos pioneiros, as da Comissão de Trabalhadores. A formação do meu carácter fez-se junto dos oprimidos, termo tão desgastado como eles próprios; fez-se junto de quem empunhava a bandeira da justiça social, dos direitos iguais, direito à liberdade de expressão, à saúde, à educação. Em casa ouvia-se Sérgio Godinho, Zeca Afonso, Ary, Luísa Basto, Io Appolonni e às vezes até, só por piada, só porque sim, porque se podia, a rádio Moscovo. Nas paredes do meu quarto nunca tive posters dos cantores da moda, mas tinha o do menino do cravo e o do Che. No meu blusão de ganga os pins eram também do Che, eram a foice e o martelo, chegou a ser o Lénine.
Na nossa mesa, lá em casa, apesar de os meus pais, ambos, sairem cedíssimo e voltarem já noite do trabalho, não havia quase nada. Com o dinheiro das parcas poupanças íamos vivendo, devagar e com cuidado porque não se sabia quanto tempo teríamos que viver apenas delas. Comi pão com queijo, algumas vezes, em vez de pão seco, porque as minhas tias nos ajudavam. Continuei a ir de transportes públicos para a escola porque o meu pai passou a ir de bicicleta para a Lisnave. Passou a sair ainda mais cedo, mal nos víamos. Nessa altura comecei a dar formação a adultos, à noite. O trabalho era voluntário, mas pagavam-nos o passe social, e o meu pai pôde voltar a guardar as energias para descer aos porões dos navios.
Senti sempre na pele a exploração de que os trabalhadores eram alvo. Senti as injustiças. A fome. Mais tarde senti a privação de poder continuar a estudar. Como poderia eu pedir aos meus pais que fizessem ainda mais esse sacrifício de me deixarem ir para a faculdade? Por isso não fui. Fui trabalhar. Aliviei-lhes o peso. Às tantas trabalhava de dia, saía a correr e ia ainda tentar mais uns trocos à noite e aos sábados dava explicações em casa. Aos domingos dormia, de tão cansada. A minha juventude veio já tarde. Mas isso não faz mal.
Hoje, olhando para trás enquanto ouço elogiar os valores, as qualidades do neo-liberalismo, as constatações de que só com uma sociedade capitalista lá vamos, volto a sentir os ombros pesados como aos 13, 14, 15 anos. Entristecem-me os dias em que estamos, não vejo caminho à frente e a única coisa que posso fazer condignamente, com convicção, é afirmar-me comunista, tanto nas palavras como no boletim de voto.
Apesar de tanto desalento, de tanto descrédito, não compreendo nem aceito quem opta por não votar, argumentando que é em liberdade que fazem a escolha, esquecendo que a liberdade de poder votar é assustadoramente recente.
Por isso estou a 2 dias de voltar a votar no PCP, como venho fazendo de há 20 anos para cá. Com convicção. Com honra. Com orgulho.
A outra:
Bem, eu se calhar também vou votar no domingo. Aproveito quando for comprar o pão.
Ela:
Fazes bem.
Ela:
Agora é o "estás distante", o "sinto-te longe"... ainda dizem que as gajas é que são complicadas.
A outra:
Mas é verdade?
Ela:
Não absolutamente. Mas não quero perder nem mais um pintelho de sossego com as merdas que escolhe fazer e que são tãããão imprescindíveis. Se são, que lhe façam bom proveito. Estou-me a cagar. E se estar-me a cagar passa a mensagem de que estou distante, azarito. Tenho é que me poupar a mim. Foda-se, já chega de pôr sempre os outros em primeiro lugar, de fazer opções de acordo com a avaliação de se vou ou não magoar o outro. Que se lixe. Quem é que faz isso por mim?
A outra:
Estás zangada?
Ela:
Acho que não. Já não me zango com essas merdas. É como é e eu já interiorizei que assim é. Em consequência, obviamente, faço o mesmo, que não tenho nem quero já ter feitio para ficar em casa com uma mantinha pelos joelhos enquanto espero a esmola do tempo que sobrou para mim. C'est fini.
A outra:
Estás zangada.
Ela:
De todo. Aliás, era coisa que esperava, sabia que aconteceria, era uma questão de dias. Portanto se quer ir a casa dela, que vá, se quer lá ficar que fique, eu estou-me nas tintas. Estou mesmo. Até dormi bem de noite e tudo. Já viste o cabrão do progresso que fiz?
A outra:
Não estou assim tão certa de que seja progresso, mas se dizes que te sentes menos pesada...
Ela:
Completamente. É como já te disse, a coisa mais escabrosa, segundo os meus parâmetros, que escolha fazer, não terá de mim uma única crítica. Cada um deve fazer o que quer fazer. E se opta por fazer apesar de mim, eu farei exactamente o mesmo.
A outra:
Isso é uma relação?
Ela:
Deve ser. Provavelmente das modernas. Faz o que entender fazer, quando e com quem o quiser fazer. Eu farei exactamente o mesmo. No tempo que sobrar, trocaremos as sobras um com o outro. Durará enquanto durar. Já não tenho expectativas quanto a nada. Deixei de ter quando me mentalizei que certas coisas nunca mudariam, e agora não estou dependente de nada. Não acredito em nada, não espero nada, e por isso, não voltarei a ter amargos de boca ou desilusões.
A outra:
Não te reconheço. Não sei se acredito em ti.
Ela:
Devias acreditar. A ti não minto. Quanto a não me reconheceres... habitua-te, querida. Esta sou a nova "eu".
A outra:
E a paixão e o tango que sempre quiseste que moldassem a tua vida?
Ela:
Há mais onde procurar.
Ela:
Esta noite sonhei contigo.
A outra:
Foi bom?
Ela:
Foi bom, mas foi estranho. Sonhei contigo, com antigos colegas, com a minha avó que já morreu. E estava bem, ela, feliz.
A outra:
Devem ser saudades.
Ela:
Dela sim. E de ti. E talvez de outros tempos menos difíceis.
A outra:
A saudade é tão improdutiva.
Ela:
É. Mas não há como evitar.
A outra:
Mas essas saudades... de que tens falta?
Ela:
De intimidade. De proximidade. De cumplicidade.
A outra:
Um ganho implica sempre uma perda, não é o que costumas dizer? Se te queres poupar a certas emoções, prescindes da intimidade.
Ela:
E não há volta a dar?
A outra:
Não sei como. Se vestes o sobretudo proteges-te do frio, mas também não apanhas sol na pele.
Ela:
Era bom se as coisas fossem mais a nosso jeito.
A outra:
Era...
Ela:
Era bom se soubéssemos qual é o nosso jeito.
Ela:
É bom voltar aqui, voltar a ti. Voltar a mim.
A outra:
Eu sei. Também senti a falta.
Ela:
De nada adiantou este sono prolongado.
A outra:
Não achas que nos podemos ter poupado a algumas coisas?
Ela:
Acho. Mas não teremos deixado de viver outras tantas que poderiam ter sido boas?
A outra:
Não sei. Estou cansada.
Ela:
Eu sei. Eu também estou. Mas agora acho que sou capaz de um certo distanciamento e que isto até pode não ser tão difícil.
A outra:
Isso é temporário.
Ela:
O distanciamento?
A outra:
O distanciamento.
Ela:
Não sei. Talvez não seja. Imagino, como sempre imaginei, cenários possíveis, alguns até já vivenciados, e vejo-me diferente perante eles.
A outra:
Diferente como? Distante?
Ela:
Distanciada. Isto existe? Distanciada como uma espectadora, não como participante.
A outra:
Mas tu não és uma espectadora. É a tua vida, são os teus dias, não lhes podes fugir.
Ela:
Não sei se é fugir. Acho antes que é uma espécie de consequência, ou melhor, de efeito secundário.
A outra:
Não te percebo.
Ela:
Não me sei explicar. É como se uma certa anestesia tivesse verdadeiramente tomado conta de mim, e já não me imagino perdida em pânico e ansiedade com situações que antes me afligiam e desesperavam.
A outra:
És outra?
Ela:
Sou a mesma. Mas diferente. Não podes fazer uma viagem e evitar que ela deixe marcas em ti. Não podes correr a maratona e esperar não transpirar. Todas as coisas por que passamos deixam o seu testemunho.
A outra:
E em ti foi este? Distância?
Ela:
Distanciamento, é diferente. Já não me importo com uma série de coisas.
A outra:
Distanciamento, pois... e como é com as coisas boas?
Ela:
Não posso dizer que são tão intensas. Também ficam modeladas pela mesma relativização.
A outra:
Assim é-se feliz?
Ela:
Não se é infeliz. Portanto...
A outra:
Portanto, nada, não te parece?
Ela:
Não. Eu é que sei de mim.

Ela:
Se alguém que mal conheces te diz qualquer coisa do género: "Não deve ser fácil tentar ser mulher que chegue para ele..." o que pensarias?
A outra:
Que alguém se estava a meter na minha vida.
Ela:
E que queria o quê com isso?
A outra:
Sei lá... meter conversa.
Ela:
Achas?
A outra:
É uma hipótese.
Ela:
É.
A outra:
Mas tu achas que foi outra coisa.
Ela:
Sabes, às vezes o tom ou a expressão, não sei bem, e o que se diz também parece não fazer sentido.
A outra:
Caga nisso.
Ela:
Pois.
Ela:
Sabes, ainda acerca daquilo de nos filmes serem as mulheres solitárias que têm gatos?
A outra:
Sim, mas uma das tuas brilhantes teorias. O que tem?
Ela:
Ele disse-me: " A gente tem o vício de, quando nos identificamos com um filme, um livro, acabamos por elegê-lo como oráculos, o que aconteceu com o personagem será o nosso destino. Mal sabemos que, na verdade, estamos caindo nas armadilhas de um Tolstoi."
A outra:
Pois. E, como um livro ou um filme, agora vais identificar-te com essa frase.
Ela:
Mas tem a sua verdade, não tem?
A outra:
Tem. Tanto assim que aí estás tu com mais uma frase solta para a tua colecção.
Ela:
Estás a ser um bocado cínica. Que mal tem uma pessoa ir arranjando ombros onde se apoiar?
A outra:
O mal está apenas na escolha dos ombros, uma espécie de santo com pés de barro, devias era apoiar-te em terra firme.
Ela:
Dantes eu acreditava que uma pessoa podia ser um porto de abrigo.
A outra:
E pode.
Ela:
Não, não pode. Queres mais uma frase? "Nunca mais servirei senhor que possa morrer."
A outra:
Fico triste quando tens medo.
Ela:
E eu fico com medo de ter medo. Assim como o meu gato que quando foge assustado bate com a cabeça nos pés da mesa; quando estou com medo fujo às cegas, não consigo abrir os olhos.
A outra:
O medo é castrador.
Ela:
Há dias em que não é assim. Depois uma pequena frase, pode até ser apenas uma palavra, ou mesmo a falta dela, e pronto, a nuvem instala-se, fico com frio e não consigo mexer-me.
A outra:
Se te perdesses na neve, ficarias parada à espera da morte ou continuarias a andar enquanto conseguisses?
Ela:
Acho que continuaria a andar.
A outra:
Faz o mesmo aqui, neste frio, neste medo. Não fiques parada, enrolada sobre ti mesma, sai, levanta-te, sacode os cabelos e caminha direita, desafia, finge que não tens medo, engana-te, se preciso for.
Ela:
Mas é que a energia desaparece por completo. Não consegues perceber? Não me é possível pensar, ser lúcida, tenho medo e é tudo.
A outra:
Porque queres que seja o teu porto de abrigo.
Ela:
Porque sei que nunca será.
A outra:
E mesmo assim queres ficar?
Ela:
Quero, gosto dele. Mesmo sabendo que nunca me dará tudo.
A outra:
Nunca ninguém dá tudo.
Ela:
Eu daria.
A outra:
Então dá, sem esperares primeiro, dá apenas.
Ela:
Não posso. Se dou e depois não recebo, como fico? Outra vez vazia?
A outra:
Não podes estar sempre a olhar para trás, por cima do ombro. Não podes, senão não vês em frente e fazes como o teu gato, passas a vida a bater nos pés da mesa.
Ela:
Falavas das minhas brilhantes teorias, não é? Pois olha, é verdade, teorias tenho muitas, demais, o problema é outro, como bem sabes.
A outra:
Posso abraçar-te, posso dizer-te que tudo ficará bem, posso fazer-te festas no cabelo, beijá-lo, posso ficar contigo no colo, mas não é de mim que o queres, pois não?
Ela:
Tenho medo de ficar com tanto medo que já queira isso de quem estiver disposto a dar-me.
A outra:
Se isso acontecer, que pelo menos te deixe mais sossegada. Sem culpas. Apenas o sossego. E eu vou estar sempre aqui.
Ela:
Mesmo que eu adormeça?
A outra:
Sim, estarei ainda quando acordares.
A outra:
Nem sei o que dizer, nunca te imaginei com um gato.
Ela:
Se pensares bem, faz sentido.
A outra:
Mas tu até as plantas deixas morrer.
Ela:
Não sejas assim, vou cuidar bem dele.
A outra:
Mas um gato?
Ela:
É como dizia há pouco a um amigo, nos filmes as mulheres solitárias têm sempre um gato. As famílias grandes e felizes é que têm cães.
A outra:
Tu não és uma mulher solitária.
Ela:
Sou, claro que sou.
A outra:
Bem, posso falar por mim, tens-me a mim.
Ela:
Mesmo assim. Posso ter-te a ti, posso até pensar que tenho outras pessoas, no final, que não haja ilusões, sou uma mulher solitária e vou morrer velha e sozinha em casa.
A outra:
Se ao menos morreres feliz...
Ela:
Mas envelhecer sozinha, morrer sozinha em casa sem ninguém que possa olhar para mim, sem ter quem possa contar como foram os meus últimos segundos.
A outra:
Se calhar morres atropelada no meio da avenida.
Ela:
Ou de cancro numa cama de hospital.
A outra:
Já chega, não?
Ela:
Sim, até porque não era disso que falava, era da solidão.
A outra:
Não, tu falavas do teu gato.
Ela:
E das mulheres dos filmes.
A outra:
Dos filmes de ficção.
Ela:
Já percebi. Já sei que estou a entrar novamente no tal quarto escuro que me prostra de medo.
A outra:
Tens que voltar para trás, não entrar, ou sair dele.
Ela:
Eu sei. Estou a falar contigo a ver se descubro forma de o fazer.
A outra:
Segue a luz, procura uma janela ou uma porta, qualquer coisa que te guie.
Ela:
Calma, devagar, estou à procura.
Ela:
Eu acho que o amor faz mesmo andar o mundo, mas não dessa forma bonita que nos querem fazer crer.
A outra:
Espera, espera, vamos por partes. Tu achas que o amor faz andar o mundo? Tu?
Ela:
Sim, a par com o dinheiro, com o desejo de poder.
A outra:
Então e de que forma feia é que tu achas que isso acontece?
Ela:
Não é necessariamente feia, mas é ardilosa.
A outra:
Explica-te lá.
Ela:
Sabes a maldade inteira que os amantes têm?
A outra:
Maldade?
Ela:
Sim, a maldade que lhes ensina truques, chantagem, mentiras. Que os faz ficar alertas, desconfiados.
A outra:
És tão cínica.
Ela:
Não achas que é verdade?
A outra:
Não.
Ela:
Tu nunca tiveste "um dedo que adivinha", nunca usaste truques para conseguires uma atitude ou uma resposta, nunca foste matreira?
A outra:
E isso tem a ver com o estatuto de amantes?
Ela:
Tem. Porque quando estás apaixonada ficas mais frágil passas a ter medo e o medo eleva o pior de nós.
A outra:
E o amor não eleva o melhor?
Ela:
O medo manda mais.
A outra:
Sempre?
Ela:
O medo tira o sono, a fome, a sede, as necessidades mais básicas. A ânsia de sobreviver obriga-te a seres feia, uma amante de maldade inteira.
A outra:
Agora estás tu a ser feia.
Ela:
Mas não era essa a intenção, isto não tem mal, é a sobrevivência, mesmo dentro do amor.
A outra:
Vale tudo?
Ela:
Um tudo que se absolutiza ou relativiza quando mais absoluto ou relativo for o amor que a ele obriga.
A outra:
E se fosses dormir um bocadinho?
Ela:
Sim, é capaz de ser melhor.
Ela:
Olha só o que eu li sobre a Piaf: "Passou toda a sua vida entre a procura permanente do amor perfeito e o desassossego que o desamor lhe provocava."
A outra:
Sabes quem me faz lembrar?
Ela:
Sei.
A outra:
Pois.
Ela:
Roubei um terço, de uma igreja.
A outra:
Tiraste, queres tu dizer.
Ela:
Não, roubei mesmo. Achas que o outro, o maior, me vai castigar? Achas que é pecado?
A outra:
Pecado por pecado, hás-de ter outros bem maiores.
Ela:
Achas mesmo?
A outra:
Não me fodas, eu sei lá que diabo é um pecado.
Ela:
Porque terei feito naquele dia do festival cinco tranças daquelas pequeninas que não dou conta que faço?
A outra:
Provavelmente pela mesma razão por que fazes só uma.
Ela:
Mas foram cinco. Só soube quando as desmanchei.
A outra:
Foda-se.
Ela:
É só o que tens para me dizer?
A outra:
Já passou, não passou?
Ela:
Até à próxima.
A outra:
Talvez não haja próxima.
Ela:
Não, já não me dou ao luxo de acreditar nisso. Há-se haver sempre próxima, próximas. E eu não sei até quando me deixo encher.
A outra:
Até transbordares?
Ela:
E se faltar pouco?
A outra:
Acaba-se a agonia.
Ela:
E acaba-se o resto também.
A outra:
Tens pena?
Ela:
Sim, desta vez tenho pena, muita.
A outra:
Então eu também. Por ti.
Ela:
O Jorge disse-me que eu estou estupidamente sexy.
A outra:
Foda-se.
Ela:
O que foi?
A outra:
Isso nem parece dele.
Ela:
Deve ser porque é verdade, não?
A outra:
Não respondo, o teu ego às vezes aborrece-me.
Ela:
Mas são tão poucas vezes.
A outra:
És uma parva.
Ela:
E o Carlos.
A outra:
O que tem?
Ela:
Disse-me que não percebe porque é que eu digo que sou melhor amiga do que namorada.
A outra:
Porque é que lhe disseste isso?
Ela:
Porque é verdade.
A outra:
E o que é que isso tem a ver com o Jorge?
Ela:
É mais um elogio, mas tu não apanhas bem a coisa, porque está fora do contexto.
A outra:
Por acaso é verdade, estás bonita, até o Luís já to disse.
Ela:
Viste bem o carinho do beijo que me deu?
A outra:
Às vezes é bom voltar, não é?
Ela:
É. Uma espécie de casa onde não há surpresas desagradáveis.
A outra:
Como nadar onde se tem pé?
Ela:
Nem consigo de outra maneira.
A outra:
Isso nota-se à distância, minha amiga.
Ela:
Não te irrita que o gajo que está contigo se pasme a olhar para outras gajas, por mais boazudas que sejam?
A outra:
Eles têm olhos, é normal que vejam.
Ela:
Sim, que vejam, não que fiquem a olhar, às vezes quase a babarem-se.
A outra:
Tu não olhas para os gajos?
Ela:
Não fico a olhar, a tirar medidas, vejo porque estão à minha frente, e pronto.
A outra:
Os gajos são diferentes.
Ela:
Não são todos assim. Foda-se, que falta de respeito, não?
A outra:
Não ligues, já sabes a velha história de uma cabeça mandar mais do que outra.
Ela:
Isso é uma treta. Para mais quando os gajos supostamente são inteligentes.
A outra:
Não há inteligência nem vontade nem respeito que batam a tusa.
Ela:
Tusa? Achas que chega a tanto?
A outra:
Tanto?! Tusa é nada.
Ela:
Às vezes ainda acredito no "só ter olhos para ti", no "amar-te-ei até à morte", no "quero-te acima de todas as coisas", no "sou todo teu e quero-te só pra mim".
A outra:
Não sei que merdas andaste a ler em pequena, mas talvez tenha chegado o tempo de te tprnares mais realistas. Isso não existe.
Ela:
Dizes-me tu? Que acreditas ainda no príncipe encantado?
A outra:
Isso é porque tenho de acreditar em alguma coisa.
Ela:
Se não é assim, de que vale tudo isto? De que vale a gente gostar, amar, entregar-se, confiar?
A outra:
Não falavas há dias da cenoura que faz andar os burros? Acreditar no amor, ou no príncipe encantado, é a cenoura; nós somos os burros.
Ela:
Pois somos.
A outra:
Nada é perfeito.
Ela:
Não precisava de ser perfeito, apenas de ser mais genuíno.
A outra:
Achas que não é genuíno?
Ela:
Já não sei o que acho.
A outra:
Talvez se bebêssemos mais duas.
Ela:
Bohémia?
Ela:
Estou cansada.
A outra:
Felizmente estamos quase de férias.
Ela:
Sim, mas não é só isso. Sabes quando estás na praia, na água, e a ondulação está brava?
A outra:
Sim...
Ela:
Tipo, nem tens tempo para te recompores da pancada de uma onda e já lá vem outra. E cada uma que vem parece mais forte do que a outra porque estás toda dorida.
A outra:
Então, sais da água.
Ela:
É uma espécie de metáfora, estúpida, às vezes não queres sair de onde estás, só queres criar condições para te sentires confortável.
A outra:
Não estás a falar da praia...
Ela:
Posso é estar a falar de morrer na praia. Exausta.
Ela:
Um porque diz que está carente e está sozinho. Outro porque já se habituou a lançar a escada, já se tornou um vício. O outro que diz de olhos brilhantes que sonhou comigo. Estou tão cansada destes gajos todos.
A outra:
De todos?
Ela:
Bem, de todos não. Pelo menos há os decentes e honestos que vão logo direito à coisa, que dizem logo ao que vêem.
A outra:
Nem se chateiam à procura de conversa da treta.
Ela:
Mas assim é mais fácil, assim tu não precisas de procurar brechas nos jogos e podes logo dizer sim ou sopas.
A outra:
A conversa ainda por cima é sempre a mesma.
Ela:
Conheci um gajo há uns anos que gostava verdadeiramente de mim, mas a carga de trabalhos que foi para eu acreditar nisso. O pobre nem sequer me podia dizer que estava bonita que eu catalogava logo: Cantada.
A outra:
São tantas, não nos podem culpar por não acreditarmos.
Ela:
E porquê a nós? Porquê a mim? Com tanta gaja que há por aí.
A outra:
Sei lá. Porque cada uma de nós tem qualquer coisa que agrada a alguém.
Ela:
Foda-se, mas antes não me lembro de tanto assédio.
A outra:
Antes o desespero deles era menor.
Ela:
Mas porque é que estão mais desesperados agora? O que leva um gajo que me conhece há mais de dez anos a lançar a escada?
A outra:
Com o teu outro amigo resultou.
Ela:
Mas com esse foi diferente, havia empatia, amizade, um certo envolvimento. Agora este.
A outra:
Foi do teu bronze.
Ela:
Sim, o gajo farta-se de falar disso, quer saber a que solário vou, o imbecil.
A outra:
Não sejas antipática, ele até é um doce de gatinho.
Ela:
É. Mas tão fácil não tem graça, não é?
A outra:
Queres que te lembre de todas as vezes em que reclamaste porque as coisas não são fáceis?
Ela:
Não. Quero que te cales.
Ela:
Às vezes não gostavas que a tua vida fosse mais como nos filmes?
A outra:
Às vezes acho é que a minha vida é um filme.
Ela:
Sim, mas eu falo dos filmes simpáticos, daqueles em que o homem fica a dormir com ela, mesmo que ela ressone.
A outra:
O outro a ressonar pode ser exasperante.
Ela:
Sim, mas ele fica, nos filmes, só porque ela lhe pediu.
A outra:
A vida não imita a arte.
Ela:
Mas às vezes não gostavas que imitasse?
A outra:
Que ele te levasse a Paris no teu aniversário e que te oferecesse um anel de diamantes antes do "the end"?
Ela:
Não, que eu não gosto especialmente de diamantes.
A outra:
Mas gostas de Paris.
Ela:
E de filmes.
A outra:
Os filmes que são bonitos, são-no apenas para colmatar frustrações.
Ela:
Isso não parece conversa tua, talvez não me devesses dar ouvidos, na maior parte das vezes.
A outra:
Ou talvez devesse dar mais.
Ela:
Os filmes têm finais felizes.
A outra:
Nem todos.
Ela:
Mas têm momentos deliciosos, de amor completo, de plenitude, de pazes feitas com tudo e com todos.
A outra:
Não sei quem te deixou tão zangada.
Ela:
Eu não estou zangada.
A outra:
És zangada.
Ela:
São tantas as coisas que queria diferentes.
A outra:
Fá-las diferentes.
Ela:
E o que não me cabe a mim fazer? O que não está ao meu alcance? O que não está nas minhas mãos?
A outra:
Essas coisas, provavelmente, porque não são tuas, não devem ser mudadas.
Ela:
Não percebi.
A outra:
Não são tuas, abre mão e deixa-as seguir o seu caminho. A minha avó dizia-me que o que fosse meu às minhas mãos havia de vir parar.
Ela:
Entregamo-nos a um destino que não sabemos se existe e contentamo-nos com o que nos vem?
A outra:
Ou optas por querer menos, da vida, dos outros, para não acabares sempre tão decepcionada.
Ela:
Não sei querer pouco. Entre o tudo e o nada existe um vazio. Vivo nas estremidades, que hei-de fazer?
A outra:
Aprender a procurar algures no meio o que te sacie.
Ela:
Mas, segundo a tua lógica, se eu sou assim, não devia aceitar este meu fado e encolher os ombros?
A outra:
Não, encolher os ombros não te fica bem. Aceitar também não. Mas aprenderes a valorizar o pouco que te dão.
Ela:
Eu valorizo. Dou o valor que tem. Nem mais nem menos. Mas sei que pode ser mais.
A outra:
Também sabes que pode ser menos, suponho.
Ela:
A minha avó, que também me dizia umas coisas, dizia que nunca nos devemos comparar com os piores.
A outra:
Menos é pior?
Ela:
Em certas coisas é.
A outra:
Fechas o ciclo, deixas-me sem saber o que te diga, não dás hipótese.
Ela:
De quê?
A outra:
De te ajudar. A alargar horizontes. A saíres de ti. A respirares o ar fresco.
Ela:
São tantas coisas, já.
A outra:
Faz de conta que essas coisas todas aconteceram com outra pessoa, ou noutra vida. Livra-te da bagagem. Começa de novo.
Ela:
Tábua rasa?
A outra:
Se conseguisses.
Ela:
Se conseguíssemos.
Ela:
O Charles vem cá este fim de semana.
A outra:
O Charles, o teu francês?
Ela:
Oui.
A outra:
Boa! Já não o vês há muito tempo, não é?
Ela:
Sim, tirando aquela vez em que nos cruzámos no aeroporto.
A outra:
Vai ser bom, vai fazer-te bem, um fim de semana diferente.
Ela:
Pois... no início ainda pensei dizer-lhe que não estava cá, não tem sido uma semana fácil, não seria boa companhia.
A outra:
Somos sempre boa companhia para quem gosta de estar connosco.
Ela:
Não sei. De qualquer modo, o fim de semana não augura grandes coisas, e ele sempre vem de propósito para passarmos juntos.
A outra:
De propósito a Lisboa?
Ela:
Sim, se não fosse por mim iria para outro sítio qualquer.
A outra:
E o que vão fazer? Jantar, beber uns copos?
Ela:
Sim, se eu hoje ainda lhe confirmar. Há gente com uma sorte do caraças, pode decidir na sexta para que sítio da europa vai no sábado.
A outra:
Sorte é teres quem se desloque de longe para te vir fazer sorrir.
Ela:
Sim, fará isso por mim, talvez seja injusto recusar tal proposta.
A outra:
Sempre é melhor do que a alternativa a que te tinhas proposto, a de ficar a bezerrar em casa.
Ela:
Não era mau de todo, não durmo decentemente há umas boas noites.
A outra:
Tu não precisas de dormir, és essa dicotomia de working girl e China Blue, precisas é de não perder de vista o teu caminho.
Ela:
Não há caminho para poder perder de vista. É mais andar às cegas, sem mapa, sem destino, ir andando apenas.
A outra:
Porque andas então, se não tens objectivo?
Ela:
Pode ser que encontre um, a esperança e tal.
A outra:
Acho que devias dizer ao Charles para vir.
Ela:
Talvez, tenho saudades de uma conversa inteligente, amena, leve.
A outra:
E depois, sempre é um gajo giro com quem apetece estar sentada num bar.
Ela:
Mas tu és tão cabra. Gajo giro só atrapalha, distrais-te e depois só dizes disparates.
A outra:
Seja como for, liga-lhe e diz-lhe que venha.
Ela:
Se soubesses como me apetece ser eu a apanhar o avião e a desaparecer durante uns tempos.
A outra:
Ias para onde?
Ela:
Para um sítio onde não conhecesse ninguém, onde se falasse outra língua, onde pudesse ficar sem me lembrar de nada.
A outra:
Podia ir contigo e ficávamos caladas.
Ela:
Ninguém podia ir comigo, desta vez. Nem tu.
Ela:
Sabes o irónico da coisa?
A outra:
Conta.
Ela:
Sabes quando estás disposta a fazer tanto por alguém?
A outra:
E quando por ti não fazem nem o que pedes?
Ela:
Isso.
A outra:
Será que pedes o impossível?
Ela:
Não há impossíveis, o homem quer e a obra nasce, no final é tudo uma questão de vontade.
A outra:
E que queres tu?
Ela:
Ficar.
A outra:
Então fica.
Ela:
Mas para isso também tem que querer que fique.
A outra:
E não quer?
Ela:
Não faz por isso.
A outra:
Sair daqui é que era.
Ela:
Daqui, de todo o lado, sair, ponto final.
A outra:
Que fazes este fim de semana?
Ela:
De preferência, nada.
A outra:
Vens à praia comigo?
Ela:
Não me apetece, nem seria boa companhia.
A outra:
És sempre a minha melhor companhia.
Ela:
Não, nem a minha.
A outra:
Não podes ficar em casa sozinha.
Ela:
Não posso? Eu tenho a liberdade toda, minha amiga, eu também tenho.
A outra:
Isso não devia ser questão de liberdade, mas de vontade.
Ela:
Estás a citar-me.
A outra:
Porque acho que tens razão. Decidas o que decidires, como de outras vezes, estou contigo. Incondicionalmente.
Ela:
Devias ser gajo, eras perfeita para mim.
A outra:
Isso não existe.
Ela:
O quê?
A outra:
A perfeição.
Ela:
Isso eu sei, mas não posso evitar querer ser feliz, pois não?
A outra:
É como respirar, não é?
Ela:
Não há bela sem senão, mas há senãos que pesam mais do que outros.
A outra:
O que vais tu fazer?
Ela:
Já te disse, ficar em casa sem fazer nada.
A outra:
Sim, mas e depois? O que vais tu fazer depois, aos teus dias, à tua vida, à tua angústia?
Ela:
A gente habitua-se a tudo, não é o que dizem?
A outra:
Não, tu não. Isso assim não dura, não vai longe.
Ela:
E pensas que não sei? Mas que alternativa tenho? Humilhar-me mais?
A outra:
Às vezes até eu acredito que só nos livros é que o amor muda o mundo. Na vida real nem sequer muda as pessoas.
Ela:
Se calhar muda, se calhar este amor é pouco.
A outra:
O que tu sentes?
Ela:
Não, não o que eu sinto.
A outra:
Uma foda.
Ela:
Há dias, no meu miradouro, estava lá um puto que perguntou uma coisa gira ao irmão.
A outra:
Puto, puto, pequenino?
Ela:
Sim, bem pequenino. Perguntou assim "A água leva-nos a todo o mundo, não é?"
A outra:
Giro. E se calhar leva mesmo.
Ela:
Fiquei a pensar nisso. E na vontade que tive, ali, naquele momento, de saber se era verdade.
A outra:
Se a água poderia levar-te a ver o mundo?
Ela:
Se podia levar-me dali ou daqui para fora.
...
A outra:
Dói-te muito?
Ela:
Muito mais do que poderei admitir.
A outra:
Isso não é modo de viver.
Ela:
E o teu é?
A outra:
O meu é outra coisa. Tu... assim angustiada e infeliz, não sei.
Ela:
A gente habitua-se a tudo.
A outra:
Mas assim como te dói...
Ela:
Talvez se for pondo uns pensos rápidos...
A outra:
Se te fores enganando, queres tu dizer.
Ela:
Não sei se é maior a desilusão, a tristeza, a angústia.
A outra:
A frustração.
Ela:
Sim, também.
...
Ela:
Que se foda, o que não nos mata torna-nos mais fortes, não é? Quem sabe...
A outra:
Já deixaste muito mais por muito menos motivos.
Ela:
Racionalmente sei que o caminho não era este.
A outra:
Racionalmente... uma foda.
A outra:
Não achas que já chega?
Ela:
O quê?
A outra:
Esses inquéritos.
Ela:
Ora, as pessoas acham piada a responder-me, além de acreditarem que estou a escrever um livro sobre o ciúme, gostam e precisam de falar delas mesmas.
A outra:
Mas a que pensas que isso te pode levar?
Ela:
A compreender.
A outra:
Achas mesmo que podes compreender uma pessoa por ouvir outras?
Ela:
Talvez se encontrar alguém que pense da mesma forma. Talvez me dêem argumentos que entenda melhor.
A outra:
Não te iludas. E deixa isso, as coisas são como são.
Ela:
Sabes que não me conformo com facilidade. Não aceito que certas coisas são como são.
A outra:
Mas estas são, esta é. Que vais fazer?
Ela:
Depois dos inquéritos?
A outra:
Sim.
Ela:
Não sei... arranjar compensações.
A outra:
Isso só te vai arranjar problemas?
Ela:
Não sei... preciso de compensar as frustrações e a ira de alguma forma.
A outra:
Claro, isso compreendo, mas tenho medo do tipo de compensações que arranjes.
Ela:
Também eu.
A outra:
Sabes ao que isso já te levou antes.
Ela:
Desta vez pode ser diferente.
A outra:
Desta vez é diferente, desta vez sentes-te ainda mais descompensada.
Ela:
Que queres que faça? Que me entregue ao desespero, à insegurança, à falta de auto-estima?
A outra:
Falta de auto-estima porquê?
Ela:
Porque não sinto que me ama.
A outra:
Mas não to diz?
Ela:
Dizer, diz. Mas não compreendo esse amor, um amor que não teme nada, que não cede perante nada.
A outra:
Se calhar esse é que é o amor certo.
Ela:
Há um amor certo? Não sei. E não sei se é esse. Seja como for, são diferentes, como podem conviver dois conceitos diferentes de amor? Como se concretiza?
A outra:
Podes fazer esse inquérito a seguir.
Ela:
Ou posso tentar convencer-me de que me contento com menos.
A outra:
Menos do que o tango e a paixão que tanto ambicionas?
Ela:
Há quem viva com menos.
A outra:
Tu não vives com menos do que tudo.
Ela:
Será que se pode aprender a viver bem com meios-termos?
A outra:
Eu aprendi.
Ela:
Não, tu não vives, sobrevives.
A outra:
Pelo menos não estou morta.
Ela:
A prazo, estamos todos.
Ela:
Se ele ainda aqui estivesse, se ainda fosse vivo, achas que ficaria feliz por mim?
A outra:
Claro que sim, estúpida.
Ela:
Não, a sério. O que achas que ele te diria quando eu não estivesse presente? Que era mais um engano? Mais uma ilusão?
A outra:
Por que raio diria ele isso?
Ela:
Porque me conhecia bem, o meu feitio de merda, os meus princípios, até algumas das minhas limitações.
A outra:
Ele amava-te, querida, provavelmente como nunca ninguém. Acima de tudo queria ver-te feliz.
Ela:
Mesmo com outro?
A outra:
Sim, o amor dele era maior do que isso. De resto tinha sempre a esperança de que acabasse.
Ela:
Eu sei. Sinto tanto a sua falta.
A outra:
Foste tão cabra para ele, enquanto vivia.
Ela:
Mas gostava tanto dele.
A outra:
A tua sorte, para uma improvável absolvição, é que ele sabia.
Ela:
Sabia, não sabia?
A outra:
Sem dúvida.
Ela:
Mas gostar, gostar, gostava mais de ti.
A outra:
Estás parva, ele amava-te.
Ela:
Sim, mas o amor não tem razões, não é? De ti gostava pela pessoa que és, exactamente o que és.
A outra:
E de ti não?
Ela:
Não, comigo era diferente, chocávamos, implicávamos, desacordávamos, discutíamos.
A outra:
Mas gostava tanto de ti.
Ela:
Não, isso é engano. Quer dizer, gostava, mas o gosto com carinho, aquele que dá vontade de afagar, de cuidar, de proteger, esse era por ti.
A outra:
O dia dos namorados, o seu aniversário, os mimos na gaveta à espera, tudo isso era para ti.
Ela:
E a paciência.
A outra:
Sim, teve muita, mas não lhe foste fácil.
Ela:
Não devia, não podia ter-se apaixonado por mim.
A outra:
Que queres? Não mandamos nessas coisas. Oxalá mandássemos.
Ela:
Achas mesmo?
A outra:
Não era tudo mais fácil?
Ela:
E quem disse que o mais fácil sabe melhor?
A outra:
Não devia ser assim.
Ela:
Querias tudo de mão beijada?
A outra:
Não. Mas queria que nos contentássemos com menos.
Ela:
Isso não é muito pobre?
A outra:
Não sei,
Ela:
Sim, se calhar tens razão. Se calhar isto é uma espécie de... preconceito. Achamos que somos melhores pessoas, mais inteligentes e tal, se quisermos mais.
A outra:
Achas?
Ela:
Tu não?
A outra:
Eu estou tão cansada.
Ela:
Porque é que isto tem que nos cansar tanto?
A outra:
Não sei... isto o quê?
Ela:
Sim, que estúpidas, nem sabemos que nome lhe dar.
A outra:
Viver?
Ela:
Não, isso já és tu a tentar filosofar, com a mania de que não és simples.
A outra:
Ah, eu é que não sou simples?
Ela:
E por acaso és?
A outra:
Eu acho que sim, pelo menos comparada contigo.
Ela:
Foda-se, mas tu achas que eu preciso que me digas isso?
A outra:
Claro que não, tu sabes.
Ela:
E dispenso ouvi-lo.
A outra:
Também sabes que tens as mamas pequenas.
Ela:
Mas só eu é que posso dizê-lo, minha cabra.
A outra:
Eu não?
Ela:
Vá lá, e tu. Mas mais ninguém.
A outra:
O cabrão fodeu-te mesmo com essa, não fodeu?
Ela:
E de que maneira, ainda por cima porque dele esperava melhor.
A outra:
São todos iguais.
Ela:
Não são nada, uns têm a pila maior, e ele até a tinha bem pequena.
A outra:
Comparando com quem?
Ela:
Com outros.
A outra:
Isso é ressentimento.
Ela:
É verdade. Mas também é um facto.
A outra:
Ele nunca gostou desse teu outro gajo.
Ela:
Será que ao morrer tinha essa tristeza?
A outra:
Não, acho que só teve pena de nos deixar. E ao filho.
Ela:
E à vida. Gostava tanto de estar vivo. E sabia estar.
A outra:
Não chegámos a aprender isso com ele.
Ela:
Não aprendemos nada. Nunca.
A outra:
Sempre os mesmos erros.
Ela:
Outra vez os ratos?
A outra:
As ratas, querida, as ratas.
Ela:
Essas sim, deviam deixar-nos sossegadas.
A outra:
Tás parva? Se nos tiram isso, que nos resta?
Ela:
Olha, olha... até parece. Logo tu que andas sem querer saber disso há que tempos.
A outra:
Não tenho tantas solicitações como tu.
Ela:
É verdade, já viste bem? Se me desse agora para dar seguimento a estas solicitações todas?
A outra:
Tens que arranjar uma agenda.
Ela:
Cabra!
A outra:
É verdade. E um dicionário, que tens um de cada nação.
Ela:
E de mais do que continente. Agora até o espanhol?!
A outra:
E a cabra sou eu?
Ela:
Seria eu se lhes dissesse a todos "bora lá".
A outra:
E porque não dizes?
Ela:
Já estás como a outra?
A outra:
Qual outra?
Ela:
Nem quero falar disso.
A outra:
Mas fazes ou não?
Ela:
O quê?
A outra:
O que eles te pedem.
Ela:
Achas que devia?
A outra:
Não te queixas que não se importa, que não quer saber?
Ela:
E eu?
A outra:
Tu dás conta do recado.
Ela:
Eu não dou conta de recado nenhum. Sou uma incapaz.
A outra:
És é uma complicadinha.
Ela:
Há que tempos que não nos descalçamos e ficamos a beber cerveja só porque sim.
A outra:
Há que tempos.
Ela:
O que é que já fizeste por alguém?
A outra:
Por alguém?
Ela.
Por um homem, vá...
A outra:
Sempre os homens.
Ela:
Sim, sempre os homens.
...
Ela:
Então, o que é que já fizeste por um homem?
A outra:
Queres o pior ou o melhor?
Ela:
O mais difícil.
A outra:
Não é tudo difícil, quando não é expontâneo?
Ela:
Nem tudo, mas talvez seja difícil quando não nos é natural.
A outra:
Vai dar mais ou menos ao mesmo.
Ela:
Uma vez, quando era adolescente, arranjei um namorado só porque sim.
A outra:
Só uma vez?
Ela:
Quero falar-te desta vez.
A outra:
Fala.
Ela:
Não é do namoro em si, mas de uma coisa paralela, uma espécie de jogo que fiz com a minha amiga Sylvie.
A outra:
O que era?
Ela:
Definíamos uma série de objectivos e íamos pontuando o que cada uma conseguia com o seu namorado novo.
A outra:
Tão novas e tão cabras.
Ela:
Cala-te, já vais perceber. Eu fiz batota, claro.
A outra:
Obviamente. Que batota?
Ela:
Os primeiros objectivos que defini foram aqueles que eu já tinha alcançado.
A outra:
Tipo quem foi primeiro com eles para a cama?
Ela:
Não, estúpida, mesmo tão cabras tinhamos ainda qualquer coisa de romantismo.
A outra:
Continua.
Ela:
Tipo, qual deles nos oferecia primeiro um anel, qual deles dizia primeiro que tinha tido saudades nossas.
A outra:
Anel?
Ela:
Que queres, ele tinha-me dado um.
A outra:
Porquê?
Ela:
Sei lá, não importa, o que importa é o jogo, podíamos as duas agora comparar oq ue já fizémos por um homem.
A outra:
Tás parva.
Ela:
Porquê?
A outra:
Porque não admitiríamos metade das coisas. Umas por vergonha, outras porque escolhemos apagar da memória.
Ela:
Tens vergonha de muitas coisas?
A outra:
De muitas.
Ela:
Eu também.
A outra:
A não ser das que valeram a pena.
Ela:
Quais é que valeram a pena?
A outra:
As que tiveram bom retorno.
Ela:
E isso tem prazo? Quer dizer, quando é que sabemos que já não vão ter bom retorno?
A outra:
Isso é como engatar a mudança num carro, sabes o momento e pronto.
Ela:
Tão simplista.
A outra:
Não, é mesmo assim. Mas queres dizer-me o que já fizeste ou não?
Ela:
Não, não vale a pena.
A outra:
Então podemos comparar o que já fizeram por nós.
Ela:
Ou o que gostaríamos que fizessem.
A outra:
Tinha que ir dar aí. Porque é que não dizes de uma vez por todas o que queres?
Ela:
Porque sou gaja. As mulheres querem que façam certas coisas por elas, mas não querem pedi-las, querem que as adivinhem.
A outra:
E depois ficamos fodidas quando percebemos que não são Merlins.
Ela:
Assim é difícil, não é?
A outra:
Para eles as coisas são a preto e branco.
Ela:
Isso não é muito redutor?
A outra:
Que importa?
Ela:
Sim, que importa? Temos este direito, de ser injustas. Como uma espécie de vingança.
A outra:
Palavrinha feia, não?
Ela:
E não é feio que não façam um esforço?
A outra:
Eles dizem que fazem.
Ela:
Tretas. Cedem no que lhes é mais fácil, naquilo de que não lhes custa prescindir, isso não tem valor nenhum.
A outra:
Sim, tipo, deixam-te beber a última cerveja porque, na verdade, não lhes apetece mais.
Ela:
Mau exemplo, querida, apetece-lhes sempre mais uma.
A outra:
Está bem, mas tu percebeste.
Ela:
Eles é que nunca percebem nada.
A outra:
Às vezes ainda bem.
Ela:
Às vezes ainda bem? O quê?
A outra:
Que há coisas que não percebem.
Ela:
Mas às vezes até essas queríamos que percebessem.
A outra:
Se calhar. Mas se calhar isto é mesmo o outro a escrever direito por linhas tortas.
Ela:
E a cabra sou eu.
A outra:
Devíamos sair daqui.
Ela:
E íamos para onde?
A outra:
Para onde não houvesse mais ninguém.
Ela:
O inferno são os outros?
A outra:
Imagina que éramos nós.
Ela:
Fodido. Não tínhamos como fugir.
A outra:
E assim temos?
Ela:
Disseste que devíamos sair daqui.
A outra:
Pois, mas a verdade é que não saímos.
Ela:
Sempre às voltas.
A outra:
Como os estúpidos dos ratos nas rodas das gaiolas.
Ela:
Somos ratos estúpidos.
A outra:
Ratas.
Ela:
Estúpidas?
A outra:
Tanto, tanto.
Ela:
Tanto ou tão?
A outra:
Vês?
Ela:
Comprei um armário com espelho.
A outra:
Nunca páras de fazer compras?
Ela:
Coisas de gaja, compras em vez de beberes, mas pelo menos não me dá para comprar sapatos e roupas.
A outra:
E o armário é giro?
Ela:
Claro que sim, senão não o tinha comprado. Mas fiz mal as contas e a porta não abria porque batia na base.
A outra:
Foste devolvê-lo, não?
Ela:
Não. Tinha lá uma prateleira de madeira que já não utilizo, fui para a varanda de serrote em punho cortá-la à medida para fazer altura. Nem imaginas o meu empenho a serrar.
A outra:
Imagino, sim. Imagino que tentaste descarregar uma série de merdas nessa força.
Ela:
Tantas, amiga. Depois ainda me fui à lata de tinta e pintei a madeira. Depois afinal não serviu de nada e vá de pregar pregos nos azulejos. O gozo que me deu martelar à bruta, como se estivesse a martelar... sei lá onde.
...
Ela:
Há pouco, na casa de banho, estava a ver-me ao espelho e a pensar: achas que olhando para mim se nota que sou este destrambelho de pessoa?
A outra:
Destrambelho?
Ela:
Sim. Ele diz que não estou lúcida.
A outra:
Que estupidez.
Ela:
Talvez não. Talvez esteja mesmo um farrapo que já não vê claramente.
A outra:
É isso que tu achas?
Ela:
Não. Quer dizer, acho que sim, que estou lúcida, mas também acho que entrei numa espiral de ansiedade da qual não estou a conseguir sair.
A outra:
Seja como for, não, isso não se vê olhando para ti.
Ela:
Hoje, no café, a falar com a rapariga de todos os dias, nem pude tirar os óculos escuros para não ver que estava a chorar.
A outra:
Logo de manhã?
Ela:
Toda a noite. Não conseguia parar.
A outra:
Porque não me ligaste?
Ela:
Para sermos duas a não dormir? Não poderias fazer nada por mim. Só pensava que me apetecia desaparecer.
A outra:
Fugir?
Ela:
Mais do que fugir, isso implicaria ir de um lugar para outro qualquer, e o que eu queria era não estar em lugar nenhum, muito menos em mim mesma.
Ela:
Achas que é verdade isso de a felicidade só nos bater uma vez à porta?
A outra:
Nem sei se bate alguma vez.
Ela:
Mas de cada vez que conhecemos alguém, de cada vez que nos envolvemos com alguém, isso não é uma possibilidade de felicidade?
A outra:
Então já acreditas que a felicidade pode depender de outra pessoa?
Ela:
Não, não acredito. Mas pode ter a ver com isso.
A outra:
Em príncipes encantados acredito eu.
Ela:
Eu sei. Mas achas que temos mais do que uma oportunidade de nos cruzarmos com o tal?
A outra:
A pessoa certa?
Ela:
Não há pessoas certas.
A outra:
E oportunidades certas?
Ela:
Não, vem sempre tudo fora de tempo.
A outra:
Então, se calhar, por muitas que te batam à porta, nunca hás-de reconhecê-las.
Ela:
Achas mesmo?
A outra:
Esta... agora... achas que é uma oportunidade?
Ela:
Acho que poderia ser.
A outra:
Se...?
Ela:
Sei lá, se tivesse vindo noutra altura.
A outra:
Antes ou depois?
Ela:
Não sei. Antes carregaríamos menos bagagem. Depois estaríamos mais maduros.
A outra:
Mais velhos.
Ela:
Achas que era bom termos todo o tempo do mundo para podermos errar muitas vezes sem remorsos?
A outra:
És tão estúpida, tão tu mesma. Porque não me perguntas se seria bom para termos mais tempo para sermos felizes?
Ela:
Mas tu achas mesmo que isso é possível ou a felicidade é uma espécie de cenoura com que nos acenam, com que nos enganam, para seguirmos em frente?
A outra:
Como se tu seguisses em frente.
Ela:
Não sigo?
A outra:
Segues?
Ela:
Eu acho que sim.
A outra:
Eu acho que não. Não páras, é verdade, mas fazes o caminho em círculos.
Ela:
Estou tão cansada.
A outra:
Queixas-te de barriga cheia.
Ela:
Tu não sabes.
A outra:
Diz-me.
Ela:
Vou-te dizendo.
Ela:
Às vezes não duvidas que o amor exista?
A outra:
Não.
Ela:
Não?
A outra:
Acredito, que queres?
Ela:
Mas como é que sabemos que é amor?
A outra:
Sei lá, sentes.
Ela:
Mas sentes como?
A outra:
Não sei, sente-se.
Ela:
Mas como? Morres se ficares sem ele? Dispara-te o coração? Tremem-te as mãos? Vês estrelas?
A outra:
Ah, isso... estrelas vês mesmo sem amor, chérie.
Ela:
Ou navios, às vezes.
A outra:
Está calada que disso não te queixas tu agora.
Ela:
Agora, dizes bem.
A outra:
Se te perguntar se o amas, que me respondes?
Ela:
Ah, mas tu não perguntas.
A outra:
É como se uma pessoa já não ficasse tão contente como antes por fazer anos.
Ela:
Mas devias. Estás aqui.
A outra:
Tretas. O que conta não é estar apenas. Não se chega a esta idade contente por ir sobrevivendo.
Ela:
Estás parva. Sobrevives num dia para viveres no outro a seguir.
A outra:
Ou no outro, ou no outro. O problema é que às tantas já não sei se ainda sei viver quando chegar a minha vez.
Ela:
Não ficas contente por estares tão bonita e tão boazuda ainda, com essa idade?
A outra:
Com essa idade? Que queres tu dizer com isso? Que estou velha?
Ela:
Não, porra, apenas que não fazes 20 anos.
A outra:
É um dia tão igual aos outros que até dá vontade de fugir.
Ela:
Isso é só porque é dia de trabalho. E porque não há sol.
A outra:
Já são tantos.
Ela:
Estás mais bonita agora do que no dia em que te conheci.
A outra:
Isso é porque aprendeste a gostar de mim.
Ela:
Também.
Ela:
Será que agora com o sol e com os dias maiores, isto vai mudar?
A outra:
Será que finalmente lavamos a louça suja?
Ela:
Isso é contigo, da última vez lavei eu. Mas não estava a falar disso.
A outra:
Então?
Ela:
Opá, se voltaremos a pintar as unhas, a vestir camisolas mais coloridas, a usar pulseiras e aneis.
A outra:
A cantar e a fazer planos.
Ela:
A fazer comida de jeito.
A outra:
A lavar o carro.
Ela:
A rir para caralhos.
A outra:
Será que o sol nos vai devolver isso?
Ela:
Tem que ser.
A outra:
Pois tem. Estamos a ficar velhas.
Ela:
E não é de idade que falas, certo?
A outra:
Quantas vezes já traíste as pessoas com quem te envolveste?
Ela:
Sei lá, algumas...
A outra:
Muitas?
Ela:
Depende...
A outra:
De quê?
Ela:
Olha, do que se considera muito.
A outra:
Tu percebeste-me.
Ela:
Sim...
A outra:
E então?
Ela:
Foi o suficiente para não me ter sentido bem.
A outra:
Nunca?
Ela:
Não, acho que não, algumas vezes achei-me justificada.
A outra:
E estavas mesmo justificada?
Ela:
Opá, sei lá... achei que sim. Mas a questão não é essa.
A outra:
Qual é?
Ela:
O que te leva a isso. Que espaço surgiu para que entrasse outra pessoa.
A outra:
Isso não pode acontecer sem que haja propriamente espaço? Apenas porque apeteceu?
Ela:
Achas que sim? Não sei... Nós não somos animais só de instinto, pensamos, sabemos pensar, podemos pensar. Podemos resistir.
A outra:
Mas se resistirmos é porque há uma vontade.
Ela:
Pois... Por isso te falava de espaço.
A outra:
Quer dizer que nunca traíste sem esse espaço?
Ela:
Nunca.

(silêncio)

A outra:
A não ser que não se trate de traição, a não ser que a palavra seja outra.
Ela:
Se estás numa relação com uma pessoa e as vossas regras são de exclusividade, estares com outra pessoa, envolveres-te com outra pessoa, é uma traição à confiança que depositaram em ti.
A outra:
A não ser que as regras sejam outras.
Ela:
Essa é outra questão. Continuas a pensar no que vais fazer na sua ausência?
A outra:
Continuo a pensar na sua ausência. Ponto.
A outra:
Se ele se for embora...
Ela:
Sim?
A outra:
Depois há-de voltar, não é?
Ela:
Sim...
A outra:
Mas enquanto estiver longe...
Ela:
Sim?
A outra:
Que é que podemos dar a outros sem tirar a quem devemos dar, legitimamente?
Ela:
Estás a perguntar-me se podes ir dando umas fodas enquanto ele está fora?
A outra:
Sim. Mais ou menos. Não, não é isso.
Ela:
É o quê?
A outra:
Não são só as fodas. Mas se forem...
Ela:
Sim?
A outra:
Se forem só fodas, não estou a dar nada, pois não?
Ela:
Espera... a tua questão é o que tu dás ou o que tiras?
A outra:
Não sei. É o que dou. E o que tiro. Ou o que está correcto fazer.
Ela:
Se calhar o correcto é o que te apetecer a ti fazer, dentro do teu contexto.
A outra:
Se eu achar que está bem, enfim, não lhe ser "fiel", isso passa a ser correcto?
Ela:
Se tu achares que está bem, com ele, com a vida que tens com ele, é correcto para ti.
A outra:
Não sei...
Ela:
Nem eu. É sempre um terreno perigoso.
A outra:
Mas na verdade, se eu tiver outras pessoas enquanto ele não está, sem me envolver emocionalmente, e quando ele regressar voltar a ser dele, nada se perdeu, pois não?
Ela:
Isso poderá mesmo ser assim tão linear? Mesmo que não te envolvas, como achas que regressas depois para ele? Na boa?
A outra:
Há quem o faça. Na boa.
Ela:
Obviamente. Mas tu... o que interessa é como te sentirás tu, não é o que é aceite, nem o que os outros fazem, é o que tu sentirás. E, mais tarde, no que isso se transformará na tua tua relação com ele.
A outra:
Mas se for só foda, a seguir posso seguir, como quem bebeu um café, a gente não fica a pensar no café que bebeu, apenas fica o gosto, o prazer, e nem o racionalizamos.

(silêncio)

Ela:
Há uns anos, muitos, beijei um gajo de quem não gostava apenas porque ele me provocou. Foi só um beijo. Mas corri para casa para lavar energicamente a boca, e mais de 20 anos passados ainda me lembro do sabor com que fiquei.
A outra:
Que é que isso tem a ver? Como dizes foi só um beijo.
Ela:
Sim, se calhar não tem nada a ver.
Ela:
Ainda estás zangada comigo?
A outra:
Desculpa...
Ela:
Mas estás?
A outra:
Que queres? És a única pessoa com quem me posso zangar sem chegar a ficar zangada.
Ela:
Ainda me amas?
A outra:
És o que tenho.
Ela:
Como é que achas que se aguentam as gajas que não se vêem?
A outra:
Porque é que me estás a perguntar a mim?
Ela:
És tu que estás aqui...
A outra:
Mas porque é que achas que eu sei?
Ela:
Não sabes?
A outra:
Sei. Mas como é que sabes que sei?
Ela:
Foda-se, foi só uma pergunta.
A outra:
Mas o que é que quiseste dizer com isso?
Ela:
Que caralho, só te perguntei como é que achas que se sente uma gaja que não se vem. Não te pedi testemunho nenhum.
A outra:
Ao que nós chegámos...
Ela:
És uma parva.

(silêncio)

A outra:
Mas porque é que perguntas?
Ela:
Porque às vezes, por circunstâncias várias, uma pessoa pode não se vir.
A outra:
Pois pode.
Ela:
E às vezes isso pode acontecer dois ou três dias seguidos.
A outra:
Pois pode.
Ela:
E como é que isso se desbloqueia?
A outra:
Mas isso chega a estar bloqueado?
Ela:
Não sei... não chega?
A outra:
Não parva, claro que não.
Ela:
Que é que tu sabes disso?
A outra:
Eu disse que sabia alguma coisa?
Ela:
Estás zangada comigo?
A outra:
Estás no mundo, não estás? Estou zangada com o mundo, não estou? É fazer as contas...
Ela:
Sabias que a plenitude também cansa?
A outra:
Cansa?
Ela:
Não é cansar de fartar, é cansar de cairmos para o lado.
A outra:
Como é que queres que eu saiba? Achas que tenho disso?
Ela:
Sei que não... Mas uma pessoa até tem medo.
A outra:
De quê?
Ela:
De dizer que está bem.
A outra:
Diz-me só a mim, baixinho.
Ela:
Sabias que uma gaja pode sentir-se uma princesa só por causa de um gesto, de um olhar?
A outra:
Sentes-te uma princesa?
Ela:
Não estúpida, era maneira de dizer, sinto-me bem, sinto-me quase em casa.
A outra:
Não é o que se quer? Sentirmo-nos em casa noutra pessoa?
Ela:
De tão pouco se faz a felicidade e passamos a vida a bater em paredes ocas a desenterrar coisas inúteis que só nos vão pesar.
A outra:
Tens mesmo de te pôr com essas merdas de frases feitas a metro?
Ela:
Tens mesmo de ser tão desagradável?
A outra:
É que tenho sentido a tua falta.
Ela:
Temos que passar a dormir menos.
A outra:
A comer em esplanadas.
Ela:
A beber sumos de fruta.
A outra:
Ehhhh.... não é preciso exagerar. Anda daí que hoje é por minha conta.
Ela:
Isto continua sempre a mesma merda.
A outra:
Lá estás tu.
Ela:
Foda-se, é verdade, demos as voltas que dermos, descamba tudo no mesmo.
A outra:
Mas tu estás a falar de quê?
Ela:
Olha, nem me apetece dizer-te.
A outra:
Mas tu estás parva?
Ela:
Não percebes? Se dou nome às coisas não tenho como evitá-las, como fugir-lhes.
A outra:
Mas se não deres não consegues enfrentá-las.
Ela:
E quem te disse que as quero enfrentar?
A outra:
Foda-se, foda-se, foda-se. Mas se não as enfrentares como é que as derrotas? Tu estás mesmo parva, mulher.
Ela:
Se tu soubesses do que estou a falar, não me falavas assim.
A outra:
Então diz-me. Estás a falar de quê?
Ela:
Olha, se não percebes sem que to diga claramente, depois de todas as pistas, não vale a pena, não irias compreender.
A outra:
Mas uma coisa já compreendi.
Ela:
O quê?
A outra:
Que de certeza que falas assim com ele. E que ele deve ficar tão à nora como eu. E depois, ainda por cima, ficas à espera que te dê a resposta certa, sem que lhe tenhas colocado a pergunta.
Ela:
Não é bem assim.
A outra:
Não? De certeza?
Ela:
Eu dou as pistas todas, as peças todas, é só juntar e fazer o puzzle.
A outra:
Foda-se. Mas porquê? Porque é que dás as peças e não mostras logo o que queres?
Ela:
Porque não consigo.
A outra:
Ó caralho, mas tu não percebes que se disseres claramente o que queres terás uma resposta também clara?
Ela:
E tu não percebes que não consigo?
A outra:
Ai, se eu não gostasse tanto de ti... Mas tem cuidado, nem toda a gente gosta assim de ti, nem toda a gente tem paciência ilimitada para ti.
Ela:
Então, se ele se cansar, fico com o problema resolvido.
A outra:
É isso, não é? Forças a ruptura que vês anunciada, só para teres razão.
Ela:
Não é para ter razão. E não forço nada.
A outra:
Sabes a idade que tens. Sabes que já não tens muito tempo para andares a brincar às dores de corno e às novelas mexicanas. Vê se atinas e se de uma vez por todas páras de deitar pela janela as oportunidades que vais tendo que, se vires bem as coisas, têm sido bem mais do que aquelas a que tem direito a maior parte das pessoas.
Ela:
Não têm sido assim tantas.
A outra:
Querida, duas já é mais do que o normal.
(silêncio)
A outra:
Respira fundo, muitas vezes. Sai daqui, vai ver o mar. Senta-te na areia. E pensa, mulher. Pensa no que tens, no que podes ter. E vê lá se não vale a pena tentares resolver o que achas que está mal.
Ela:
Tenho tanto medo. Tenho sempre tanto medo. E isto, este viver assim, é já uma segunda pele para mim, já não me lembro como se vive com leveza, com serenidade, sem dúvidas.
A outra:
Anda daí, anda. Vens comigo, não abres a boca e deixas que o mar e o sol entrem pelos teus olhos a ver se te chegam à alma, ao coração, onde for, desde que te consigas sentir melhor.
Ela:
Sabes que ele também me leva a ver o mar?
A outra:
Não... eu disse-te para não abrires a boca.
Ela:
Dantes não era assim.
A outra:
O outono?
Ela:
Não, a morte anunciada.
A outra:
Estás a falar de quê?
Ela:
Dantes começávamos uma coisa e, ainda que soubéssemos de mil coisas que podiam correr mal, não pensávamos nisso, e fazíamos planos com base no presente.
A outra:
Não te estou a perceber.
Ela:
Estou a dizer-te que agora é como se soubéssemos que temos uma doença terminal e vivemos os dias com os olhos postos no final, no último.
A outra:
Isso é tão bestialmente estúpido.
Ela:
É, não é? Mas que fazer?
A outra:
Foda-se, fazer como antes. Porque raio hás-de tu viver a contar os dias que ganhaste?
Ela:
A finitude. A finitude, parece que está mais presente do que o próprio presente.
A outra:
E por causa dessa estupidez absoluta ficas de olhos arregalados quando tens que fazer planos para daqui a um mês.
Ela:
Não te faz sentido?
A outra:
Absolutamente. Tu podes morrer já a seguir atropelada por um autocarro, porém pediste um empréstimo ao banco que planeias pagar em vinte e cinco anos. E compras bilhetes anuais para o teatro. E pagas o ballet para os três trimestres. Qual é a diferença?
Ela:
Em vez de me ajudares...
A outra:
Sabes o que eu acho? Que não queres ser ajudada. Queres a hecatombe já, agora, para poderes dizer que tinhas razão.
Ela:
És tão cabra para mim.
A outra:
Sou? Achas que sim? Estás a perder inteligència mais depressa do que o outro ganha dinheiro.
Ela:
Não sejas assim, tenho medo, é como se estivesse apoiada num bloco de gelo e seja só uma questão de tempo até que derreta e eu fique à deriva.
A outra:
Mas tu já estás à deriva. Pior, tens onde te agarrar e guardas as mãos nos bolsos. Assobias para o lado e esperas que a vida se resolva por si só.
Ela:
Não. Não quero mais ouvir-te hoje.
A outra:
Vês?
Ela:
Tenho uma amiga assim, como eu, sofre na ânsia de estar bem, e quando está acobarda-se e quer é pirar-se.
A outra:
São duas tolas.
Ela:
Complicadinhas de merda.
A outra:
Que amiga é essa?
Ela:
Não conheces.
A outra:
Pensava que conhecia todas.
Ela:
Há algumas que não.

(silêncio)

A outra:
Fiquei com ciumes.
Ela:
Parva.
A outra:
Estou a ficar muito dependente de ti.
Ela:
Mas eu nunca deixarei de fazer parte de ti.
A outra:
Essa amiga... é mais do que eu?
Ela:
Ninguém é mais do que tu.
A outra:
Nem ele?
Ela:
Nenhum ele. Ninguém.
A outra:
Tu nunca sentes ciumes?
Ela:
De ti?
A outra:
Não só de mim.

(silêncio)

Ela:
Às vezes. Não como dantes, mas às vezes vejo as coisas manchadinhas de verde.
A outra:
E o que fazes?
Ela:
Tento ignorar. Superar. Ser melhor do que isso.
A outra:
E consegues?
Ela:
Às vezes.
A outra:
É fodido.
Ela:
Lembra-te que te amo. Não me foste imposta, nada nos obriga a nada, sou tua amiga porque quero, és mais para mim porque quero, é uma escolha, não somos obrigadas a nada.
A outra:
E a partilha?
Ela:
Que partilha?
A outra:
Nós partilharmo-nos com outros.
Ela:
Suponho que faz parte.
A outra:
As pessoas não ficam siamesas só porque se gostam, não é?
Ela:
Isso tiraria o ar.
A outra:
E já se respira tão mal.
Ela:
Pois respira.
A outra:
E a insegurança?
Ela:
É uma filha da puta.
A outra:
Lá isso.
Ela:
Também tenho medo.
A outra:
Eu sei.
Ela:
Mas não me quero fechar mais.
A outra:
Senão não entram as coisas boas.
Ela:
E há coisas boas que são tão boas.
A outra:
Quem me dera.
Ela:
O quê?
A outra:
As coisas boas.
Ela:
Chegará o nosso tempo.
A outra:
O teu já chegou.
Ela:
Não, o tempo das coisas boas sem finitude.
A outra:
Esse nunca chegará.
Ela:
Era tão bom.
A outra:
Era.
Ela:
Convidou-me para um café.
A outra:
E tu foste?
Ela:
Ainda não.
A outra:
Porquê?
Ela:
Porque tenho sempre esta coisa quando é para estar com homens a quem já dei pedaços de mim.
A outra:
Com quem dormiste?
Ela:
Não, a esses não dei nada, se foi só sexo. Falo dos outros.
A outra:
Tens sempre que coisa?
Ela:
Esta dificuldade. Custa-me um bocado olhar para eles, estar com eles e ver uma espécie de fracasso.
A outra:
Neles?
Ela:
Em mim.
A outra:
Eu acho que devias ir beber esse café.
Ela:
Porquê?
A outra:
Porque já não sentes nada por ele, e porque assim sendo se forem para a cama já te vais lembrar dele como um gajo na categoria só das fodas.
Ela:
És tão cabra. Eu falo de um café e tu já falas de fodas?
A outra:
Como tu costumas dizer, nunca se sabe, pois não?
Ela:
Estou cansada disso, das fodas pontuais e previsíveis.
A outra:
Mais das pontuais ou mais das previsíveis?
Ela:
É igual.
A outra:
Estás a entristecer outra vez.
Ela:
Faltam-me os antidepressivos.
A outra:
Mas tens sol.
Ela:
E tenho-te a ti.
A outra:
E tens-me a mim.
Ela:
Exceptuando a surpresa ou o choque inicial, haverá muita gente a sentir a nossa falta quando morremos?
A outra:
Filhos, pais, amigos, suponho que sim.
Ela:
Não, mas sentir mesmo a falta. Lembrar todos os dias, precisar de nós, doer porque não estamos presentes.
A outra:
Nós sentimos isso ainda hoje, e ele já morreu há uns anos.
Ela:
Eu acho que as pessoas se habituam. Lembram-se mas conformam-se. Não sei se alguém iria verdadeiramente sentir a minha falta.
A outra:
Como te disse, filhos, pais, amigos, com certeza.
Ela:
Mas falta, falta. Doer. Não conseguir substituir, colmatar.

(silêncio)

A outra:
É como aquilo que me disseste do incondicionalmente. Ninguém nos ama assim, nem os nossos pais.
Ela:
Ainda tu queres que eu acredite no amor, no amor feliz. Tem que ser incondicional, e se não o é, não é amor.
A outra:
"Quer tudo, terás nada"
Ela:
Eu sei, mas então prefiro ficar sem nada, o quase angustia-me.
A outra:
O quase pode ser a a caminho do tudo.
Ela:
Ou pode não ser. O amargo de boca. Não sei se suporto mais.
A outra:
E parar de viver? É melhor?
Ela:
Se viver é sentir, eu sinto coisas, não preciso de sentir essas para estar viva, pois não?
A outra:
Tu? Tu precisas, sim. É a única forma.
Ela:
Às vezes, muitas vezes, não percebo o que fazes ainda aí, com ele.
A outra:
Que queres? A gente habitua-se.
Ela:
Não a tudo, não nos habituamos a tudo. Ninguém se habitua a não ser feliz.
A outra:
É possível, sim. Tu é que agora que te sentes melhor, já não te lembras.
Ela:
Não é que não me lembre. Tenho é mais dificuldade em aceitar os dias cinzentos.
A outra:
A gente habitua-se.
Ela:
Já partilhámos muitas coisas, muitas mágoas, muitos copos, muitas horas de pés descalços na varanda, muitos risos. Mas, em boa verdade, nunca partilhámos a felicidade.
A outra:
Não digas isso, já fomos tão felizes juntas.
Ela:
Sim, eu sei, não me expliquei bem. Fomos felizes pontualmente. E juntas. Mas eu refiro-me a estarmos felizes, de bem com a vida, cada uma com a sua, em simultâneo.
A outra:
Não me lembro da última vez.
Ela:
Então que caralho fazes tu ainda aí? Sempre te admirei a coragem de ficares numa situação dolorosa e pesada, apesar de tudo, porque o gosto é que mandava. Mas diz-me, esse gosto, ainda está lá?
A outra:
Eu sei lá. Já não penso nisso.
Ela:
E todavia, és tu que me falas em histórias de amor felizes.
A outra:
Nunca se sabe.
Ela:
Não, nunca se sabe.
A outra:
Ainda não me contaste como foi ter um liberal contigo na festa do avante.
Ela:
Foda-se, deixa lá a ideologia do gajo, não me estejas sempre a cobrar isso.
A outra:
Não, minha amiga, tens que levar comigo, tantos anos a apregoar o esquerdismo, a chateares-te com tudo e com todos por causa das posições de cada um, e agora vejo-te assim apanhadinha que nem mosca em teia de aranha.
Ela:
E não tenho desculpa nenhuma, não posso sequer dizer que me apaixonei primeiro e só depois soube que o gajo é de direita.
A outra:
Então e como é que foi?
Ela:
A festa? Com ele?
A outra:
Sim.
Ela.
Opá, como achas que foi, se estamos a falar de um gajo que, sendo de direita, põe a tocar José Mário Branco como banda sonora quando vou lá a casa?
A outra:
Está a dar-te graxa.
Ela:
Se é isso, resulta. Mas não me parece. Porra, saber de cor a queixa das almas jovens censuradas, tá bem, mas quem é que decora o FMI para dar graxa seja a quem for.
A outra:
Se for para te dar graxa a ti, acho que vale bem o trabalho.
Ela:
Achas que eu valho a pena?
A outra:
Mas tu tens dúvidas?
Ela:
Já me aconteceram tantas coisas más.
A outra:
Porque tu deixaste. Podias sempre ter saído quando viste que começavam a não resultar.
Ela:
Podia? Podia mesmo? Se tivesse saído como é que eu agora tinha esta certeza absoluta de que foram caminhos errados?
A outra:
Porque todos os caminhos que não te fazem sorrir e rir, todos os que te carregam os ombros com peso em vez de to aliviarem, todos os caminhos que não se fazem de companheirismo, cumplicidade e confiança, são necessariamente errados.
Ela:
Será por isso que este é tão certo?
A outra:
Com ele?
Ela:
Com ele apenas ainda me parece certo, não sei se é. Referia-me a este caminho contigo.
A outra:
Este comigo alimenta-nos às duas, faz-nos rir e sorrir, Às duas. Somos companheiras, cúmplices e confiamos incondicionalmente uma na outra.
Ela:
Gosto dessa palavra.
A outra:
Qual delas? Hoje tou eu muito faladora.
Ela:
Incondicionalmente. É uma palavra que me segura, que me assegura, que me acalenta.
A outra:
Mas é uma palavra que não se encontra muitas vezes. Já a Débora te dizia que querias a alma dos outros.
Ela:
Mas o que ela queria dizer é que quero os outros incondicionalmente, que sejam incondicionalmente meus.
A outra:
Isso não existe, não dessa forma.
Ela:
Existe connosco, por isso é que és tão importante para mim.
A outra:
Já passámos por tantas coisas, tantos anos, tantas pessoas, tantos estados de alma.
Ela:
Tanta história, tanta cumplicidade. Será que se consegue isto no amor?
A outra:
Sabes o que penso acerca disso. Que sim. Que se consegue. Que o amor pode ser maravilhoso.
Ela:
Mesmo fora dos livros.
A outra:
Sabes? Vais-me contando. Passa estes dias, semanas, meses, o que for, enquanto se sentirem bem. Depois, mesmo que acabe como tantas vezes lembras, logo fazes o balanço, logo vês se se consegue.
Ela:
E se um dia não for assim?
A outra:
O quê?
Ela:
Se um dia não acabar? Se um dia eu começar uma coisa destas e não a acabar? Se me deixar ir até ao fim dos dias?
A outra:
Até que a morte nos separe?
Ela:
Sim.
A outra:
Isso não era bom?
Ela:
Tenho medo.
A outra:
E vontade? De te deixares estar?
Ela:
Tanta, amiga. Deixar-me estar no seu colo, no seu abraço, nas nossas conversas, nos nossos risos, nesta serenidade tão nova e tão estranha para mim.
A outra:
Então não digas nada. Deixa-te estar, apenas. Não te faças super-mulher, deixa que te acarinhe, que te veja e ouça chorar se for preciso, que te faça vir e que te diga que te ama.
Ela:
És tão bonita, amiga.
A outra:
Não achas que isto pode parecer um bocado mal?
Ela:
Isto? Parecer mal? Saber bem, sim, mas parecer mal? Como?
A outra:
Não sei, imagina que entra alguém agora, eu com esta cena na mão, e ligada, tu aqui sentada juntinha a mim, e com a mão na minha perna.
Ela:
Sim, imagino que qualquer um deles havia de pensar que finalmente a fantasia se realizou.
A outra:
Bora, querida?
Ela:
Cabra, só me dizes isso a rir, à séria, nada.
A outra:
E já o experimentaste?
Ela:
Ainda não, levo-o este fim de semana para casa dele.
A outra:
Love is in the air...
Ela:
Não gozes comigo, deixa-me sentir bem.
A outra:
É só que te quero, amiga.
Ela:
Logo o filho da mãe havia de ser de direita, o cabrão.
A outra:
Mas diz lá se não gostas do pau da bandeira que ostenta.
Ela:
És tão tão cabra, minha puta. E gosto tanto de te ver rir assim.
A outra:
E eu a ti.
Ela:
Os teus olhos ficam mais verdes.
A outra:
A tua boca fica mais apetitosa.
Ela:
E maior?
A outra:
Como se isso fosse possível.
Ela:
Cheirinho no café?
A outra:
Para ti. Para mim é café no cheirinho.
Ela:
À nossa, querida, que muitos dias inteiros nos esperem nas árvores.
A outra:
Deixamos passar o tempo de tudo.
Ela:
O que queres dizer?
A outra:
O tempo de estudarmos o que sempre quisémos estudar, de procurar um trabalho melhor, de ter os filhos que desejámos ter, de cortarmos amarras e de seguirmos viagem.
Ela:
Achas que esse tempo passa? O da mudança?
A outra:
O relógio não pára, arrasta o calendário, vamos coleccionando fotos de festas de aniversário, as rugas, a celulite, os cabelos brancos.
Ela:
Isso não é conversa tua. Quando muito, seria minha. E tu dir-me-ias que estamos sempre a tempo de procurarmos ser felizes.
A outra:
Dizemos muitas coisas.
Ela:
E fazemos muito poucas.
A outra:
Olha, enches-me o copo? E dá-me um abraço.
Ela:
Gostava que tivéssemos mais tempo.
A outra:
Para fazer mais merda?
Ela:
Mais merda?
A outra:
Na vida.
Ela:
Não, estúpida, não é mais tempo de vida, é mais tempo na vida, mais tempo para estarmos juntas, as duas.
A outra:
Eu sei, nós estamos juntas todos os dias, mas temos pouco tempo para nos sentarmos numa esplanada ou na tua varanda a beber e a fumar.
Ela:
Ou na tua varanda.
A outra:
Não, gosto mais da tua, a tua tem mais história.
Ela:
Já lá passámos boas horas.
A outra:
Tenho saudades.
Ela:
Eu agora tenho saudades da tua lareira, da manta que estendes no chão, de nos deitarmos sobre ela a ver o lume, de entornarmos cerveja nas almofadas e de rirmos.
A outra:
Já viste bem o deserto que era se não nos tivéssemos uma à outra?
Ela:
O resto, por si só, não chega, pois não? É preciso uma amizade assim para o resto fazer sentido.
A outra:
Às vezes até parece que sou dependente de ti.
Ela:
Mas não és. Tens os olhos verdes e um intenso sentido de sobrevivência.
A outra:
Mas estou farta de sobreviver, quero viver um bocadinho, só por um bocadinho.
Ela:
Temos estes dias, os dias em que estamos longe de tudo e perto uma da outra.
A outra:
Não aprendemos nada.
Ela:
Nada?
A outra:
Nada. Damos cabeçadas umas atrás de outras e são sempre as mesmas e não aprendemos, não paramos, não nos olhamos ao espelho, não olhamos para trás.
Ela:
Eu pensava que olhávamos demais para trás.
A outra:
Não me expliquei bem, olhamos para trás, mas não vemos.
Ela:
Já não é só surdez?
A outra:
Nunca foi.
(silêncio)

A outra:
Nem tacto. As minhas mãos tocam e agarram em coisas, em pessoas, e não sinto nada.
Ela:
És uma des-sensoriada.
A outra:
Isso existe?
Ela:
O quê?
A outra:
A palavra.
Ela:
Passa a existir. Inventamos tantas coisas, é mais uma.
A outra:
Bora inventar tempo. E formas de sermos felizes.
Ela:
Era bom.
A outra:
Cala-te, cabra, tu estás feliz.
Ela:
Mas angustiada. Porque estar feliz é um estado, é transitório, está-se, não se é.
A outra:
Como é que sabes? Pode ser que te habitues.
Ela:
À felicidade?
A outra:
À felicidade. Aos dias bonitos, mesmo com frio e sem sol. Às pessoas que te tratam bem. Que te amam. Que te querem bem.
Ela:
Assim como tu?
A outra:
Também como eu.
Ela:
Às vezes tenho medo das palavras.
A outra:
Tu?, que nunca te calas?
Ela:
Não digas isso, por vezes ficamos as duas apenas caladas, quase sossegadas.
A outra:
De que palavras tens tu medo?
Ela:
Destas que ele me diz. A gente desabitua-se de ouvir certas coisas.
A outra:
És tão estúpida. E ingrata. Sabes, com certeza, que se passa uma vida inteira à espera de ouvir o que ele te diz.
Ela:
Mas durante essa vida inteira ninguém nos ensina a lidar com o final do caminho. Percebes? Andamos toda a vida à procura, à espera, ao engano, e quando finalmente temos a porta à frente e achave na mão, é como se não soubéssemos como usá-las, como se o cansaço do caminho percorrido nos desse apenas vontade de descansar na soleira da porta, antes de tomar o caminho de volta, sem chegar a entrar.
A outra:
Não dizes coisa com coisa. Já chegaste até aqui, vais fazer tudo de volta sem sequer espreitar?
Ela:
Estou cansada e tenho medo.
A outra:
Eu sei, é o teu retrato. Mas também sei que passado o primeiro assombro vais deixar descair os ombros e a melhor parte, querida, é que se não conseguires transpôr a porta, até tens quem te carregue ao colo e te ajude a entrar.
Ela:
Vais espreitando a ver se não me acontece nada?
A outra:
Estou sempre contigo, minha amiga. Estive quando quase te afogavas e estarei agora que podes pairar acima das nuvens escuras.
A outra:
Auqele dia que dizias ter começado tão bem que só podia continuar perfeito...
Ela:
Sim?
A outra:
Continuou.
Ela:
Mais que perfeito.
A outra:
Isso existe?
Ela:
Eu pensava que não, mas como classifico o que excede as expectativas?
A outra:
Mais que perfeito.
Ela:
Isso não é demais para uma mulher simples como eu lidar?
A outra:
Desde quando tu és simples?
Ela:
Há dias que, por começarem tão bem, só podem continuar perfeitos.
A outra:
Ena, conta lá o que foi.
Ela:
Hoje vesti-me toda bonita, coração e tudo, que ele vinha do aeroporto directamente ver-me.
A outra:
E como foi?
Ela:
Estranhíssimo. Ainda ando a ver se percebo que é isto de lhe sentir tanto a falta e de gostar tanto de estar com ele.
A outra:
Podias deixar de tentar perceber o que isso é, deixar de tentar dar nome às coisas e viver o momento.
Ela:
Já sei, já sei, carpe diem.
A outra:
As coisas boas que nos acontecem duram tão pouco que devíamos usufruir delas dem pensar no momento a seguir.
Ela:
Ando a ver se aprendo, tem calma.
Ela:
Não me perguntas como foi o fim de semana?
A outra:
Não quero saber. Achas que me apetece roer-me mais de inveja?
Ela:
De inveja?
A outra:
Sim, do romance todo com o teu príncipe encantado.
Ela:
Não sejas parva, não achas que mereço depois de tão grande travessia no deserto?
A outra:
Claro que acho. Mereces. E tens. Cabra.
Ela:
Além de ele não ser um príncipe encantado, querida, ou pelo menos duvido que seja, ainda um destes dias me há-de mostrar que afinal é apenas um homem, não foi nada disso que aconteceu.
A outra:
Não houve romance?
Ela:
Bem, não pessoalmente, ainda está nos trópicos.
A outra:
Então que podes tu ter para contar?
Ela:
Além de ter mudado a casa quase toda, ontem fartei-me de cozinhar.
A outra:
Tu? Cozinhar?
Ela:
Sim senhora. E não me custou nada. Fiz comida para a semana toda.
A outra:
Gosto de te ver com vontade de fazer coisas.
Ela:
Gosto de estar viva outra vez.
A outra:
Só precisavas de fazer o funeral, para poderes renascer.
Ela:
Até o sol agora parece mais quente apesar do outono.
A outra:
Não é o sol, querida, és tu. O teu corpo e o teu espírito.
Ela:
Continuo a amar-te, sabias, amiga?